13. Os tempos verbais

Responda depressa: onde está o passado? E o futuro, onde está?

Respondo eu, intuitivamente: o passado está antes do presente e o futuro está (ou estará) depois. Logo, é o presente que determina o que é passado e futuro.

E onde está o presente?

De novo, intuitivamente, sem pensar muito: aqui e agora.

Aqui e agora (o “onde” e o “quando”, lembra?) : uma coordenada espaço-temporal que aponta para o corpo e o que lhe está ao redor.

Para o meu corpo – o corpo de quem fala ou escreve – e para a relação ele que mantém com outros corpos próximos.

Ortega y Gasset disse: “Eu sou eu e minhas circunstâncias.” Nós poderíamos dizer: “Eu sou o meu corpo e os meus circundantes.”, entendendo por “circundantes os outros corpos próximos.

Mas o quão “próximos”? Não é tão simples dizer. Por isso, os sonhos nos enganam. Porque simulam a presença de objetos que só existem na nossa mente, apesar de nós os sentirmos reais e próximos. E é por isso também que as lembranças nos emocionam e as fantasias nos excitam tanto.

Aqui e agora: não vou dizer que seja impossível pensar o tempo separado do espaço, mas a verdade mais simples é que não fazemos isso – a não ser em raros exercícios de profunda abstração. O que está longe de ser o nosso caso.

Por isso, a mais óbvia representação do tempo é uma linha reta entre dois pontos – que é também a representação de uma trajetória no espaço. Porque, óbvio, espaço e tempo são inseparáveis. E até certo ponto se confundem.

É evidente que quando falamos em passado, presente e futuro imediatamente podemos associar a começo, meio e fim.

ComeçoMeioFim
PassadoPresenteFuturo

Mas, repare: o tempo passa, flui, mas é sempre, para nós, presente. Porque o presente é o corpo.

Mas, como sabemos, o presente traz consigo um passado e um futuro que o constituem. Somos, portanto, uma história.

É a isso que chamamos de história, nossa história: uma trajetória num campo de possibilidades.

Lembra?


Lembra desta história?

Eu tinha feito a prova, passara, e esperava ser chamado. Até que desisti. Precisava trabalhar. Mas o que iria fazer? Com o que ainda me restava de dinheiro, montei uma cozinha semi-profissional em casa e agora vendo sanduíches. A partir do mês que vem, venderei também doces. E venderia sorvetes, se já tivesse o equipamento necessário.

Podemos decupá-la em cenas:

PROVARESULTADOESPERAVIRADATRABALHOPROJETOS
cena 1cena 2cena 3cena 4cena 5cena 6

De cara, a gente percebe:

  • A história tem seu próprio tempo, seu começo, meio e fim.
  • Cada cena é, em si, uma história dentro da história.
  • Ela tem antecedentes – antes da cena 1 – e se estende indeterminadamente para depois da cena 6.
  • O narrador pode se colocar em qualquer ponto da história para começar a contá-la.

Onde nosso narrador começa sua história?

O centro da história é a cena 4. É em torno dela que a história gira. Porque é o momento da “virada”, quando ele rompe com o passado (cenas 1, 2 e 3) e inicia um novo presente (cena 5) e projeto um futuro (cena 6).

Mas repare que há algo peculiar no passado das cenas 1 e 2 e também no passado da cena 3.

A cena 4 está no tempo verbal que chamamos de passado perfeito (ou pretérito perfeito). Ele é de certo modo o presente do passado, o tempo que serve de referência para outros eventos do passado, que seriam então o passado do passado.

Nesse caso, haveria dois tipos de passado do passado:

  • aquele que se refere a eventos já terminados: o passado mais que perfeito (cenas 1 e 2)
  • aquele que se refere a eventos que estavam em andamento quando foram interrompidos pelo evento o corrido no passado perfeito (cena 4): o passado imperfeito (cena 3).

É também a partir do evento da cena 4 que se estabelece o presente (cena 5) e se projeta o futuro (cena 6).

PROVARESULTADOESPERAVIRADATRABALHOPROJETOS
cena 1cena 2cena 3cena 4cena 5cena 6
FizeraPassaraEsperavaDesistiVendoVenderei

Repare, e isso é importante, que estamos no dimensão do tempo real.

Poderíamos ter inserido referências à dimensão virtual do tempo.

Alguns exemplos:

  • Na cena 1, o narrador poderia dizer que chegara a pensar em fazer concurso para a Polícia Federal, seguindo os passos de um tio, mas desistiu porque percebeu que lhe faltavam as características físicas necessárias. (cena 1.1)
  • Na cena 3, ele poderia contar que antes de se decidir por sanduíches, avaliam a possibilidade de uma franquia, mas o dinheiro não seria suficiente. (cena 3.1)

Veremos a seguir tudo isso com mais detalhe.


Em seu movimento incessante, o pensamento trafega pelo tempo, indo e vindo entre o que foi e o que poderia ter sido, entre o que é e o que ainda pode vir a ser, entre fatos, lembranças, frustrações e hipóteses, tendo sempre o presente como referência explícita ou implícita, porque é sempre agora que penso.

A essa complexa percepção do tempo, nós chamamos de dupla natureza do tempo: há a dimensão real, a sucessão dos fatos. E há a dimensão virtual, que permanentemente nos oferece possibilidades a seguir.

Essa dupla natureza do tempo toma a forma dos modos e tempos verbais.

Os dois modos principais são o indicativo e o subjuntivo.

  • O modo indicativo se refere principalmente à dimensão real do tempo.
  • O modo subjuntivo se refere exclusivamente à dimensão virtual do tempo.

No modo indicativo há cinco tempos:

  • Presente
  • Pretérito perfeito
  • Pretérito imperfeito
  • Pretérito mais-que-perfeito
  • Futuro do presente
  • Futuro do pretérito

OBS: Pretérito quer dizer passado, como já vimos. Daqui em diante, vou usar “pretérito” para os tempos verbais, e “passado” para o tempo no sentido físico.

Todos esses tempos verbais indicam o tempo real, à exceção do pretérito imperfeito e do futuro do pretérito.

Vejamos cada um desses tempos mais detalhadamente.

O presente, o pretérito perfeito e o futuro do presente dispensam maiores comentários. São os “tempos naturais” que identificamos como o passado, presente e futuro da dimensão real do tempo. Por exemplo. “Eu fui, eu sou e eu serei sempre um bibliólatra, isto é, um viciado em livros.”

Falemos então desses outros tempos, mais complexos, que são o pretérito imperfeito, o pretérito mais que perfeito e o futuro do pretérito.


Bem, é fácil imaginar um bebê como o começo dos começos. Pois é, mas até um bebê tem antecedentes. Ou seja, o passado do passado: ele estava na barriga da mãe, antes de nascer.

Por outro lado, quando pensamos no campo de possibilidades vemos que mesmo do passado se projeta um futuro hipotético baseado no que poderia ter acontecido mas não aconteceu. É o futuro do passado. “Quando eu era jovem, poderia ter estudado mais.”

Então veja que já temos mais dois tempos: o passado do passado e o futuro do passado.

Mas ainda não acabou. Há dois passados do passado. Um passado do passado que já passara, e um passado do passado que vinha passando quando foi interrompido. “Eu estudara a noite toda e repassava as matérias quando alguém bateu na porta.”

Parece complicado, mas não é, se lembrarmos lá do começo, quando falamos da dupla natureza do tempo e do principio binário da existência.

Falamos da plasticidade da linguagem, do pensamento e, portanto, das histórias. Então veja que, do ponto de vista do narrador, ele pode se colocar em qualquer ponto do “tempo da história” para começar a sua narrativa.

Ele pode cismar e dizer: “Bom, este evento do passado vai ser meu ponto de partida!”, e começar: “Naquele dia, eu estava….” – e aí começaria no passado do passado, até chegar ao o passado perfeito: “Foi então que me decidi...”.

Como escritor, pense o passado como um lugar para onde você pode se transportar mentalmente. Ao nos colocarmos no passado, o pretérito perfeito assume o papel de algo como um “presente do passado” que serve de referência ao “passado do passado”, isto é aos outros tempos do passado, anteriores a ele:

  • um passado anterior em andamento, chamado pretérito imperfeito.
  • um passado anterior já terminado, chamado pretérito-mais que-perfeito.

Detalhemos um pouco mais essa noção de passado anterior em andamento.

Ele pode ser uma ação que se realizou habitualmente até determinado momento. Ou que vinha se realizando até ser interrompida ou finalizada em determinado momento do passado. E esse “determinado momento” é o pretérito perfeito, o “presente do passado”, como o chamei, aquele ponto de referência que orienta a narrativa no passado.

Alguns exemplos:

“Eu caminhava todos os dias, até que machuquei o pé.”
“Ele já se machucara, quando eu cheguei.”
“Eu terminara o jantar. Enquanto esperava que eles chegassem, aproveitei para arrumar a casa.”

Também podemos pensar o futuro como um lugar para onde nos transportamos. Usamos o futuro do presente se, partindo do presente, supomos uma sucessão previsível de fatos. Por isso, o futuro do presente é uma afirmação categórica: “Eu farei um bom trabalho.”

Já o futuro do pretérito é usado ou desde o passado para indicar um futuro que não aconteceu; ou desde o presente, para indicar um futuro que pode acontecer se certas condições forem satisfeitas.

Por exemplo:
“Eu seria hoje um cineasta, se não tivesse escolhido a literatura.”
“Eu seria seu sócio nesse empreendimento, se você entrasse com o mesmo capital que eu.”


Vamos fazer um rápido desvio só pra descomplicar um pouco.

Já dissemos que o tempo é contínuo. É assim que o experimentamos na vida. Não há fatos negativos.

Quando você diz: “Eu não fui ao dentista” não significa que tenha se produzido um buraco no consultório do pobre do seu dentista por conta da sua ausência. Na verdade, quando você diz que não foi ao dentista, você diz muito pouco, quase nada, porque o que importa é saber aonde de fato você foi.

O problema desses modos simples do passado do passado, especialmente do pretérito mais que perfeito é que eles não passam essa ideia (além de serem chatos de decorar!). Então o que aconteceu? Na língua falada, a gente usa os tempos compostos.

Ninguém diz “Eu fizera”, mas “Eu tinha feito”.

As pessoas até dizem “Eu pescava quando começou a chover”, mas preferem dizer “Eu estava pescando quando começou a chover”.

Vale até um quadro:

Passados do passadosimplescomposto
Pretérito imperfeitoEu faziaEu estava fazendo
Pretérito mais que perfeitoEu fizeraEu tinha feito

Vejamos de novo aquela nossa historinha, agora contada do jeito que falamos:

“Eu tinha feito a prova, tinha passado e estava esperando ser chamado. Até que desisti. O que faria? Montei um negócio e agora vendo sanduíches. A partir do mês que vem, venderei também doces. E venderia sorvetes, se já tivesse o equipamento necessário.”


Tratamos acima apenas do modo indicativo que indica a dimensão real do tempo.

O modo subjuntivo ou conjuntivo indica e dá forma à dimensão virtual do tempo.

Já vimos que essa dimensão virtual – hipotética/condicional – expressa uma expectativa de continuidade ou descontinuidade ainda potencial, segundo uma escala de possibilidade de quatro níveis:

previsível
(muito provável)
provávelimprovávelimprevisível
(pouco provável)

Assim, dadas tais e tais condições, podemos esperar que alguma coisa aconteça segundo um desses graus de possibilidade. A base desse cálculo probabilístico são nossas experiências passadas e expectativas futuras em contrapartida ao presente imediato.

Há uma tensão natural entre os modos indicativo e subjuntivo – entre o que é ou foi fato, e aquilo que não foi, e que pode ou não ainda vir a ser. É dessa tensão entre o presente, passado e futuro, entre nossas esperanças e frustrações, que se constroem os textos, não importa se ficções, reportagens ou análises históricas.

O modo subjuntivo obviamente também se conjuga nos tempos presente, passado e futuro.

O presente refere-se a uma ação presente tratada como hipótese ou a uma ação futura imediata. Por exemplo: “Eu trabalhar muito não significa que eu ganhe bem”.

Outro exemplos:

“Que você faça a coisa certa para que todos possam dormir tranqüilos.”

“Que Deus nos proteja”.

As duas proposições se referem a uma ação que esperamos que acontece logo em seguida ou num futuro muito próximo.

O pretérito lida com o passado irrealizado se projetando sobre o presente ou o futuro. Muitas vezes, ele se combina com o futuro do pretérito do indicativo. Por exemplo: “Se você estudasse mais, passaria de ano.”

Só para efeito de comparação, vejamos a mesma ideia expressa no futuro do subjuntivo: “Se você estudar mais, passará de ano.”

No presente do subjuntivo, ficaria assim: “Estude, que você passa.”

O futuro do subjuntivo indica uma ação que, ao se dar, afetará o futuro. Como no exemplo anterior: “Se estudar, passará.”

Ou: “Quando o inverno chegar, não sei se estaremos preparados.”


Uma palavra sobre o que em cinema é chamado de turning point ou ponto de virada.

Na nossa história o ponto de virada é o momento em que o narrador desiste de esperar. É ali que a história “vira” e toma novo rumo.

E é em torno desse momento que a história se estrutura.

Ele é o ponto central onde queremos chegar para de lá partir de novo. Ele está lá, portanto, como que dividindo a narrativa em duas partes.

Então, apesar de podermos começar uma narrativa de qualquer ponto da história, se localizamos ou definimos o ponto de virada correto, nossa narrativa ganha em dramaticidade, em efeito.

Veja que fiz agora uma distinção nova: entre história e narrativa.

A mesma história pode ter diferentes narrativas. Pelo simples motivo que a verdade é uma só.

História não é sinônimo de narrativa. A história tem e conta uma verdade que é sempre a mesma. As narrativas são apenas modos de ordenar os fatos da história na hora de contá-la.

Diferentes narrativas quase sempre são resultado de apreensões distintas e mais ou menos imperfeitas dos fatos que constituem a história.


Vamos ver agora a nossa historinha do concursado que virou empreendedor de um ponto de vista gráfico:

Ele faz o concurso, passa e espera:

De repente, depois de uma provável luta interior, ele decide tomar um rumo imprevisto:

Ele “chuta no balde”, como se diz, mas a coisa dá certo!

E repare que a trajetória segue numa ascendente em direção ao futuro.


Vamos aproveitar esse gráfico e fazer um exercício.

Analise-o com atenção, repare nas oscilações da linha vermelha entre o previsível e o imprevisível , e crie uma nova história.