5. Causalidade e generalização

Dissemos que tudo o que existe traça uma trajetória num campo de possibilidades finitas. Uma maneira mais pomposa de dizer simplesmente que tudo tem uma história.

Mas o que determina essa trajetória? O que faz essa história acontecer?

A resposta é simples: causas.

Ou de novo, sendo mais exato e pomposo: relações causais entre fatos que fazem um ser ou coisa se mover de um ponto a outro de seu campo de possibilidade.

Ufa!

Ou seja, esse movimento não acontece do nada ou por acaso. Algo o provoca: uma causa. Determinar as causas que movem uma história é a principal tarefa de quem conta ou inventa essa história. É isso que distingue o bom escritor, o bom jornalista, o bom advogado, o bom juiz.

Vamos então acrescentar mais um princípio evidente à nossa lista:

Tudo tem causa.

Não há fato ou ser sem uma causa que lhe dê origem.

Então agora já podemos arriscar uma definição mais completa – e ainda mais pomposa! – do que é uma história:

Tudo que existe traça uma trajetória num campo de possibilidades finitas movido por causas determináveis.

(Então, veja: tudo que existe é uma história!)


Intuitivamente, a partir de nossa própria experiência de vida, sabemos que o conjunto de fatos passados tem um valor determinante na sequência dos fatos futuros. De tal modo que, do passado podemos deduzir o futuro imediato segundo uma escala de probabilidades.

Há coisas que tomamos como certas: aquelas que resultam de leis naturais, como a água ferver a 100 graus. Há outras que dizemos previsíveis porque resultam de expectativas criadas pela experiência passada. O clima é um bom exemplo: “Sempre que venta desse jeito, costuma chover.”

Há aquelas que chamamos de inesperadas ou imprevistas, como os acidentes. E há ainda o imprevisível, como o resultado de uma decisão de campeonato: a vitória de um ou de outro não é imprevista, mas imprevisível, porque as forças são equivalentes.

Como todas essas variáveis é possível construir uma escala de probabilidades que se estende quase ao infinito, aplicável da previsão do tempo aos riscos da Bolsa de Valores. Ela abarca desde o acaso (aquele encontro imprevisto que só se deu por conta de um atraso inesperado, por exemplo) até os milagres.

Todas essas alternativas formam o vasto campo do possível onde acontecem as historias. O nosso campo de possibilidades onde está mergulhada a realidade, lembra?

Mas cada uma dessas possibilidades, mais ou menos prováveis, só se realiza pela ação de uma causa ou um conjunto delas.

As quatro causas de Aristóteles

Foi Aristóteles quem, por assim dizer, sofisticou a ideia de causalidade, aprofundando-a, ao desvendar seu papel na dinâmica da existência. Foi ele quem primeiro estabeleceu o que chamarei aqui improvisadamente de “complexo causal”, ao definir a causalidade como um conjunto de quatro causas combinadas:

  • a causa formal
  • a causa material
  • a causa eficiente
  • causa final

Toda ação, todo fato, todo ser (enfim, tudo que existe) está determinado por essas quatro causas.

A causa formal é a ideia da coisa. O exemplo clássico: a planta de uma casa. Outros exemplos: o plano, o esquema, o cronograma, o DNA. A causa formal é o “como” da coisa.

A causa material é a matéria de que é feita. Isto é, no caso da casa, os tijolos, o cimento, os acabamentos, etc. Outros exemplos: a arma do crime, os ossos e músculos, o papel do livro. A causa material é o “o quê” da coisa.

A causa eficiente é o agente que faz a coisa. No exemplo da casa, o trabalho dos operários. Outros exemplos: o criminoso, os alimentos, a ação da quadrilha. A causa eficiente é o “quem” da coisa.

A causa final é a finalidade para que a coisa é feita. No caso da casa, servir de moradia. Outros exemplos: eliminar uma testemunha, alcançar uma meta, cometer crimes. A causa final é o “por quê” da coisa.

Quando pensamos sobre algo ou escrevemos um texto, temos sempre de ter em mente esse conjunto de causas. Devemos tomá-las como perguntas, e respondê-las, explicita ou implicitamente. Pois, como veremos adiante, quando falarmos sobre a estruturação do texto, as causas de Aristóteles correspondem a quatro das seis perguntas que todo texto deve responder: o quê, quem, como, porquê.

Voltaremos a esse ponto mais adiante, quando abordarmos as estruturas de texto.


A noção de que tudo que existe tem causa está intimamente relacionada ao domínio complexo que temos do tempo, de que já tratamos anteriormente.

Associo a noção de causalidade ao domínio do tempo porque me parece óbvio que inquirir sobre a causa de algo é voltar-se para o passado. Mas será também projetar-se no futuro, na medida em que, se algo tem causa, terá também consequência, numa cadeia de eventos que se estende pelo tempo.

No futuro, se a mesma causa se repetir, podemos legitimamente esperar a mesma consequência. Essa repetição de cadeias causais é o que vai dar fundamento à ideia de generalização.

A generalização resulta da nossa capacidade de:

  • Abstrair das coisas as qualidades gerais que as definem como exemplares de uma determinada espécie.
  • Intuir leis e regras gerais a partir da repetição de uma mesma relação causal.

Nesse sentido, ela deriva da abstração combinada com a experiência continuada, da repetição, e se completa pela comparação.

A generalização também se relaciona com o tempo, mas de outro modo: ela nos lança numa dimensão que está como que fora do tempo, própria das essências que abstraímos das coisas.

Pois, por exemplo, enquanto existirem cadeiras, elas serão sempre definidas como “Móvel que serve de assento para uma só pessoa, com encosto e quatro pernas, às vezes com braços”, segundo a precisa definição do Dicionário Aulete Online.

É fundamental ter em mente que é da combinação de causalidade e generalização que extraímos relações genéricas do tipo: “Se… então”, “se e somente se…”, “x + y = z” que serão fundamentais para a construção de argumentos.


Na vida, estamos sempre criando o que chamarei de “generalizações práticas” ou “provisórias”, para orientar nossas ações cotidianas. No dia-a-dia, não há como não recorrer a elas: precisamos de padrões fundados na experiência que nos permitam criar expectativas positivas ou negativas para orientar o fluxo geral da nossa vida.

Essas generalizações, por outro lado, tendem a criar acomodações que podem nos tornar intransigentes, intolerantes, preconceituosos, inertes ou preguiçosos. Burros, enfim.

Por outro lado, como já disse, sem elas, a vida não funcionaria. Isso nos remete a outro tema deste manual que abordaremos mais adiante: o senso de medida, que se relaciona com as noções de clareza e concisão.


Lembro de, na infância, ficar às vezes sozinho divagando sobre cadeias causais que tanto podiam remontar à minha origem, numa genealogia improvisada com os dados que dispunha de ouvir as conversas dos adultos e as histórias que me contavam, quanto podiam tentar dar conta da história da cadeira, ou da maçã.

Outra brincadeira era divagar sobre o “E se…”. Um tema que acredito seja comum a todo ser humano: “E se meu pai e minha mãe não tivessem se casado, eu existiria?”.

Mas um jogo mental que se pode aplicar aqui é tomar objetos diverso e fatos cotidianos ou jornalísticos e tentar desvendar o “complexo causal” que lhes deu existência, isto é, suas causas formal, material, eficiente e final. Experimente.


Finalmente, só para não esquecer:

  • Tudo é finito.
  • Tudo é contingente.
  • Tudo tem causa.