8. O quadro como texto

Vimos, no capítulo anterior, que o quadro é a síntese de visão e imagem. Um quadro deve ter, portanto, densidade e movimento.

Quem escreve, pinta quadros. Fiquemos com essa ideia.


Vamos refletir um pouco sobre este quadro, outro auto-retrato.

David e Golias, Caravaggio.
Diz-se que Caravaggio usou a si mesmo como modelo do Golias decapitado.
Eu, da minha parte, gosto de imaginar que o Davi é também ele quando jovem, recém-chegado em Roma. O olhar de desprezo de Davi para Golias parece dizer: “Como cheguei a isso?”. Visto assim, repare a densidade temporal que o quadro ganha, a trajetória que ele sugere…

Densidade e movimento: eis o que faz com que o quadro pareça vivo.

E, ao mesmo tempo, imóvel. Como um ator numa peça de Samuel Beckett que no palco permanecesse imóvel e em silêncio por um tempo interminável.

Não vamos explorar agora esse aparente paradoxo, mas deixemo-lo em algum canto próximo de nosso espírito como uma espécie de critério misterioso da boa arte porque nos aponta para algo além, já nos limites da linguagem.

Esta foi nossa última tabela analógica, a síntese de todas as anteriores:

vervisão
refletirimagem
exporquadro

Podemos então concluir que, para nós, criar um texto será o mesmo que criar um quadro. Não apenas no sentido descritivo que o termo “quadro” denota, mas também no sentido técnico de que ele deve corresponder o mais perfeitamente possível à imagem – e à visão – que o antecedem.

Lembra do quadro de Norman Rockwell do capítulo anterior?

Ele contempla a visão e a registra no quadro. E vai e vem nesse movimento de comparação entre visão, imagem e quadro até alcançar uma resultado satisfatório.


Mais um quadro, outro auto-retrato, desta vez de Escher:

Auto-retrato, M.C. Escher

Como tudo isso se traduz num texto?

Nosso objetivo será conceber mentalmente um quadro e transpô-lo depois em palavras.

Temos de reunir todos os dados de que dispomos, ordená-los num quadro o mais vivo possível e descrevê-lo com o máximo de precisão e minúcia: a cada palavra um objeto; a cada frase um fato.

Já sabemos de três coisas:

  1. que uma história é uma sucessão de fatos unidos em sequência por nexos causais;
  2. que essa sucessão de fatos se dá num campo de possibilidades finitas (dimensão virtual do tempo);
  3. que ela traça uma trajetória com começo, meio e fim (dimensão real do tempo).

Então vamos lá: não importa se estamos diante de uma paisagem, de uma ideia para um conto, de uma proposta de redação. De inicio, sempre vamos nos fazer as seguintes perguntas:

O que estou vendo?
Isto é, que visões e imagens se apresentam como estímulos mentais?
Em que penso quando vejo ou leio isto?

O que isso me lembra?
Isto é, que relações estabeleço entre essa visão presente e as imagens de minhas experiências passadas?

Que desdobramentos imagino?
Isto é, o que consigo intuir, seja “para trás” (passado) como causa, seja “para frente” (futuro), como consequência?

O que estou sentindo?
Isto é, diante desse quadro, qual o meu sentimento moral: o que sinto, algo de bom ou algo de mau?


Voltemos ao quadro de Hopper para testar se essas sugestões funcionam na prática.

From Williamsburg Bridge, Edward Hopper

O que eu vejo? (e neste caso, quem responde sou eu mesmo, Antonio Caetano. Nada impede que você veja outra coisa, que tome outro ponto de partida).

O que primeiro me salta aos olhos é aquele homem sentado no parapeito da janela.

O que essa imagem me lembra? Antes de tudo, me lembra a mim mesmo, meu gosto por janelas. E associo essa imagem à introspecção meditativa própria de quem trabalha com o pensamento: o escritor, o músico, o matemático. Gente que ouve o silêncio, que lê o invisível, que busca novas analogias.

O que imagino? Um homem solitário. Não infeliz, nem antissocial, mas alguém que se nutre da própria solidão. Poderia haver uma mulher em sua cama? Sim, poderia. Como, aliás, em outros quadros de Hopper.

Excursion Into Philosophy, Edward Hopper, 1959

Ela dorme e ele se move com delicadeza para não acordá-la. É ainda muito cedo e as ruas está vazias. Ele medita. Talvez esteja comovido com a beleza dela, o corpo tão à vontade espalhado em sua cama…

O que sinto? A tela me inspira um sentimento de gravidade, alguém que pondera sobre a vida. Talvez ele pense em se casar, no rumo que sua vida tomaria se decidisse casar com essa mulher que agora tanto o inspira e comove. Como seriam seus filhos? Teriam filhos? E o que seria de sua arte se fundasse uma família?


É engraçado como em meu espírito já vai se criando um certo volume de ideias, de imagens, de cenas. Algo que eu poderia chamar perfeitamente de campo de possibilidades – como fizemos já – e uma história vai começando a ganhar corpo, uma certa tridimensionalidade, um certo movimento.

Densidade e movimento – lembra-se?

Em termos práticos, isso pode se traduzir num conjunto de notas sobre os personagens, uma linha de tempo de eventos possíveis, até mesmo um mapa da cidade por onde trafegam os personagens.

Lembra do nosso “campo de possibilidades”?

Cada um desses pontos pode ser “desenvolvido” como possibilidades de um personagem ou evento, ainda na fase de definição da história, como uma simples, mas útil, ferramenta visual.

É possível ter vários quadros: para personagens, para a história como um todo, para eventos da história. Ou seja, você pode trabalhar com períodos de tempo variáveis.

Esse campo de possibilidades pode ser sobreposto a um mapa da cidade ou do bairro.

Enfim, as combinações são quase infinitas.