9. O texto como quadro

Façamos agora um exercício de engenharia reversa. Em vez de partir do quadro para construir o texto, partiremos do texto para construir o quadro.

Criei um texto bem simples que voltarei a usar outras vezes.

Eu tinha feito a prova, passara, e esperava ser chamado. Até que desisti. Precisava trabalhar. Mas o que iria fazer? Com o que ainda me restava de dinheiro, montei uma cozinha profissional em casa e agora vendo sanduíches. A partir do mês que vem, venderei também doces. E venderia sorvetes, se já tivesse o equipamento necessário.

Vamos analisar o texto.

De cara, o óbvio: o texto se desenvolve de um modo linear, correndo do passado para o futuro. Em tese, um texto pode começar de qualquer ponto da linha do tempo da história. Essa plasticidade do pensamento e da linguagem é o terreno da criação, do estilo, dos diferentes pontos de vista narrativos.

No caso deste texto, no sentido cronológico, o centro está obviamente no presente, quando o narrador diz “agora vendo sanduíches”. É a partir desse ponto que a narrativa se ordena, tanto “para trás”, em direção ao passado, como “para frente”, em direção ao futuro.

O centro de uma história é sempre o momento presente do narrador. É importante guardar essa ideia. O centro não é necessariamente o ponto de partida, mas o ponto irradiador da história. No caso de uma redação temática, o centro é o próprio tema. Se o o que se pede é um juízo moral, o centro é o seu juízo hoje. Enfim, o que é importante guardar é a necessidade de se localizar ou estabelecer o centro do texto.

No nosso caso, a sucessão dos fatos ou eventos que constituem a linha do tempo é a seguinte:

Prova —> Resultado —> Espera —> Decisão —> Ação —> Planos

Repare (e você mesmo pode tentar a experiência) que a história poderia começar a partir de qualquer um desses pontos. Teria obviamente desenvolvimentos diferentes. Mas o centro seria sempre o mesmo: o momento presente

Também devemos ressaltar que cada um desses momentos conhecidos estão como que cercados de fatos e possibilidades de fatos que nós não vemos, mas que podemos presumir ou imaginar e que constituem aquilo que chamamos de campo de possibilidades: os dias de preparação para a prova, a espera do resultado, a alegria do resultado, a angústia de ser chamado, a ansiedade de ter de decidir-se…

Então podemos imaginar cenas, como:

  • o sujeito estudando cercado de livros;
  • comemorando o resultado positivo;
  • consultando os jornais, a internet, a caixa do correio em busca de notícias;
  • pesquisando sobre abertura de negócios;
  • na cozinha de casa fazendo sanduíches.

É mais ou menos assim que nascem os romances e roteiros. Há uma cena, um quadro, uma imagem e ela vai aos poucos ganhando densidade e movimento, sendo preenchida pelas causas que deduzimos dela e as consequências que presumimos. Se espraiando, por assim dizer, pelo tempo e pelo espaço.

Fizemos isso com o quadro do Hopper.

Ainda sobre o centro da história, é preciso distingui-lo do chamado turning point, o momento da virada que muda radicalmente o curso da história.

No nosso caso, o centro é o presente “vendo sanduíches” e o ponto da virada o momento do passado em que ele decide não esperar mais. Ou seja, o ponto de virada é a ruptura, a descontinuidade sempre possível que resulta da contingência de todos os fatos de que já falamos.


Já vimos que todos os fatos possíveis são contingentes e finitos: eles podem ou não acontecer, mas em algum momento alcançarão seu fim, seja como fato, seja como possibilidade. Então cada vez que um fato efetivamente acontece, uma série de possibilidades são excluídas ou adiadas, e outras, potencializadas, isto é, passam de possíveis a prováveis. A sucessão dos fatos se dá segundo esse ritmo binário que alterna continuidade e descontinuidade.

Na realidade, isso é só um modo de dizer que a vida é feita de histórias.

Histórias que acabam e histórias que começam – até o fim da vida. E todas essas pequenas histórias – um dia que termina num poente magnífico, uma relação que começa, um encontro inesperado, um banho frio no fim de um dia de verão, a leitura de um livro, a demissão inesperada de um emprego, a morte de um amigo, a gravidez da esposa – vão tecendo, dia após dia, a longa história de uma vida: “Minha vida daria um livro!“, já ouvimos tantas vezes dizer – e quase sempre com razão.

Desse modo, a totalidade dos fatos passados pesa sobre o fato seguinte, sem, no entanto, torná-lo necessário: há sempre a possibilidade da descontinuidade, não como fim natural e previsível, mas como desvio imprevisto, seja por acidente, seja por um ato – pensado ou impensado – do sujeito.

Por outro lado, esse ato, como qualquer outro ato, pode ter um peso tal que espalhe sua influência até o passado, redimensionando o papel que a totalidade dos fatos até então tivera.

Assim, cada ato é influenciado por todos os atos anteriores, mas também ao somar-se à totalidade, a modifica, às vezes radicalmente.

A percepção da dimensão virtual do tempo nos proporciona esse olhar “de cima”, que nos dá suficiente “amplitude” para ver o que não podemos enxergar de imediato, na dimensão real do tempo.

Assim, “do alto”, “vemos” o que nos serve como um princípio de racionalidade: o fio que une o que foi fato ao que pode vir a ser ou poderia ter sido e não foi, mas que nem por isso está condenado a não ser mais. O que não foi pode – num grau mensurável de probabilidade – vir a ser ainda, em circunstâncias diversas, mas semelhantes.

A contemplação do campo de possibilidades, operação abstrata do espírito, incolor e silenciosa, abre-se ao cálculo, à indagação das causas e consequências, à análise, à avaliação e ao planejamento. Mas é no tempo real dos fatos que o mundo e a vida existem – ainda que, como descobrimos, seja no tempo virtual que assente suas raízes.

Nossa tarefa é, portanto, pintar o quadro mais vivo e colorido possível sempre relacionando-o a uma trajetória num campo de possibilidades.

Já sabemos como fazê-lo e porque podemos fazê-lo.