10. A estrutura do texto

Como já vimos, toda história ou sucessão de fatos pode ser reduzida a um gráfico que descreve uma trajetória num campo de possibilidades. Ele pode ser entendido como a estrutura lógica da história, seu esqueleto, por assim dizer.

Cada segmento de reta entre dois pontos da trajetória no campo de possibilidades é um fato – aqui entendido como uma pequena história, a que se aplicam as regras e princípios de estruturação dos textos.

O mapa do metrô de Buenos Aires.
A combinação de linhas e avenidas formam um campo de possibilidades onde é possível traçar um número infinito de trajetórias.

Entendo por estrutura do texto a ordem como as palavras têm de se articular para criar e transmitir a descrição mais clara e exata possível de um evento. A estrutura do texto expressa então nossa percepção de mundo.

Logo, se tudo é finito e, portanto, tem começo, meio e fim, todo texto (e toda história) terá começo, meio e fim.

Na criação de textos, essa percepção se traduz sob a forma de uma estrutura dividida em três blocos:

  • Apresentação
  • Desenvolvimento
  • Conclusão

Podemos visualizar essa correlação mais facilmente na tabela abaixo:

Começo Meio Fim
Apresentação Desenvolvimento Conclusão

Não importa se estamos escrevendo uma redação, um roteiro de cinema, uma crônica, um livro, um recado. É preciso sempre de imediato reduzir nossa ideia a esse esquema simples: começo, meio e fim – apresentação, desenvolvimento e conclusão.

Outra detalhe importantíssimo. Não é só a história em si que se reduz a esse esquema. Também todas os fatos e cenas que constituem a história também têm começo, meio e fim. Tudo é finito. E porque é finito, tem uma causa.

Logo, podemos sofisticar um pouco mais o nosso quadro:

ComeçoMeioFim
ApresentaçãoDesenvolvimentoConclusão
CausaEfeitoConsequência


Podemos então dizer que, no começo da história, já devem estar presentes o germe do seu fim e os elementos do seu desenvolvimento.

Vemos isso com clareza nas boas histórias – não importa se romances, contos ou filmes. Mas isso se aplica também a uma simples redação.


Vamos imaginar uma redação: “Conte-me o seu dia em 30 linhas”.

Minha primeira reação seria pensar: “Puxa, eu não fiz nada hoje!”. Claro, acordei cedo, tomei café, trabalhei, nadei, almocei, voltei a trabalhar. Enfim um dia trivial. Como transformar isso, esse dia trivial, num texto de 30 linhas que obviamente não seja chatíssimo, um mero inventário de ações?

Na Apresentação, a gente expõe o tema e as razões que justificam um texto a respeito. No meu caso, eu faria uma breve apresentação minha: quem sou eu, as coisas que gosto de fazer, como terminei minha noite anterior e comecei meu dia.

No Desenvolvimento, em geral o objetivo é analisar essas razões em seus prós e contras, já preparando o que será a conclusão. Na minha redação, seria o momento em que eu contaria um pouco do trabalho que venho realizando há meses: este manual. A rotina a que me submeto (por que preciso nadar, por exemplo), meus objetivos e expectativas.

Na Conclusão, o que se busca é mostrar as consequências que derivam da análise do tema e a avaliação mais equilibrada possível que o autor pode fazer delas. Eu finalizaria falando da motivação que me leva a escrever este manual, por que eu acredito que ele possa ser útil.

Quantas linhas eu dedicaria a cada bloco? Essa não é uma pergunta trivial. Eu, pelo menos, gosto de medidas, nem que seja para não segui-las. Além disso, há concursos que são muito rigorosos nessa contagem de linhas.

Enfim, num texto de 30 linhas, eu dedicaria umas sete ou oito linhas à apresentação, umas doze, treze ao desenvolvimento, e o restante, nove ou dez linhas, à conclusão.

A simplicidade dessa estrutura pode beirar o óbvio para alguns, mas o segredo dela é justamente ser simples. Uma vez que você tenha sua história “descrita” nesses termos – começo, meio e fim – você pode fazer o que quiser dela. E isso vale para uma redação também. Você pode começar pelo “meio” ou mesmo pelo “fim”.

Em cinema, os exemplo são tantos que citarei os que imediatamente me ocorrem: Sunset Boulevard, Inception, Citzen Kayne, Aviator…

Em literatura, o exemplo clássico é Memórias Póstumas de Brás Cubas.