16. Cognição e juízo

Uma última palavra sobre cognição e juízo.

Falando de um modo mais grosseiro, o mesmo evento, absolutamente real e verdadeiro, pode ser descrito de forma diferente por um católico, um protestante ou um ateu, segundo a ordem e a ênfase que eles dêem aos fatos que constituem o evento.

Isso de modo algum significa que a verdade seja relativa.

Isso significa apenas uma coisa mais simples e trivial: que o juízo que fazemos dos fatos depende de nossa formação moral e filosófica, e sobretudo, de nossas intenções em relação aos fatos.

Entre a mentira e o erro, a diferença é moral: erramos por desatenção; mentimos por malícia.

Erramos por desatenção, porque a desatenção produz uma cognição deficiente. E em face de uma cognição deficiente é impossível julgar com clareza.

Por outro lado, se o número possível de cognições deficientes é imensurável, só há uma cognição verdadeira – e de fato eficiente. A ela chamamos verdade.

A verdade é uma só e ela se define pela capacidade da mente humana de perceber as coisas como elas são: suas qualidades singulares, seus nexos causais e suas possíveis consequências. Sua aparência e sua essência. Uma coisa, aliás, não pode ser pensada sem a outra ou ambas se perdem.

Sim, podemos entender um juízo como uma interpretação – mas esse é seu sentido mais fraco. Porque sempre fundado na insuficiência ou na malícia.

No processo cognitivo, como já vimos, a primeira faculdade envolvida é a sensibilidade. É ela quem registra: “Algo ocorre!”. Imediatamente, segue-se a pergunta: O que é isso que ocorre?” que aciona especialmente a memória e a imaginação. Enfim, definido o que é que ocorre, é preciso contextualizar essa ocorrência em termos de valor – imediato e futuro – para decidir por sua continuidade ou descontinuidade. É então que o entendimento entra em cena.

A isso chamamos de juízo, resultado final de um processo que começa numa sensação e passa por uma cognição.

Em nenhum momento, a principio, a questão da verdade dos objetos que se apresentam ao espírito é colocada. Porque a ideia de que toda sensação corresponde a algo de real é um suposto tão essencial que ele é, para todos os fins práticos e ontológicos. indiscutível. É por essa exata razão que os sonhos nos iludem.

E só mesmo uma terrível combinação de perda de vigor e malícia fez a filosofia transformar esse princípio natural da inteligência numa questão supostamente relevante. E insolúvel, não por algum grau intransponível de complexidade, mas simplesmente porque é uma falsa questão.

Enfim, o cerne da questão cognitiva não está no juízo nem na sensação, mas na cognição.

Então ainda que diferentes pessoas possam ter opiniões – ou interpretações diferentes sobre o mesmo objeto ou evento – o objeto ou o evento são o que são e não dependem ontologicamente de opiniões e interpretações para ser o que são.

Portanto, nenhum aparato interpretativo pode substituir a simples, generosa e dedicada atenção do sujeito ao objeto que se apresenta diante dele.

Sujeitar-se ao objeto, ser sujeito: só assim se pode alcançar uma cognição o menos deficiente possível.

Porque não será a soma de – ou a discussão entre – cognições deficientes produzidas por pré-juízos intelectuais que nos conduzirá à verdade de um objeto, fato ou evento.

Nesse sentido, apesar de todas as opiniões e interpretações meramente subjetivas e portanto relativas sobre um mesmo objeto, haverá sempre uma – e somente uma – que corresponderá perfeitamente a esse objeto.

E ainda que a aproximação a essa representação perfeita se dê de forma precária, lenta, ou o que for, isso nada tem a ver com a relatividade da verdade, mas com sua abissal profundidade e inesgotável riqueza.