Para que serve?

Adão nomeando os animais (Genesis, 2:19), Jan Brueghel

Meu objetivo aqui é entender o que é o ato de escrever.

De cara, o que a gente pode dizer é que a escrita é uma expressão da relação entre nossa mente e o mundo. Essa ideia está genialmente sintetizada na imagem de Adão nomeando as criaturas junto com Deus. Porque ela é o fundamento do que se pode chamar de “sabedoria natural” presente no espírito dos homens de todos os lugares desde de sempre.

Mas como essa relação se dá? E por que processos mentais ela se reflete na escrita?

É esse o caminho que vamos trilhar aqui.

O que proponho não é exatamente um método infalível, alguma espécie de garrafada intelectual ou um conjunto de regrinhas ritualísticas.
É uma abordagem – isto é, uma maneira de organizar um conhecimento intuitivo comum a todos – baseada na experiência de alguém que vem lidando com as palavras há décadas.

Acredito que essa abordagem nova será útil a qualquer um interessado em aprimorar seu texto: de estudantes atormentados pela exigência de redação em vestibulares e concursos, a jornalistas e escritores interessados em olhar o próprio ofício de outro ponto de vista.

À medida que escrevia, no entanto, descobri que ele pode ser também uma forma de autoconhecimento, porque nos exige olhar com atenção para o modo como pensamos e percebemos o mundo ao redor e a nós mesmos.

Seja como for, imagine este manual como um bate-papo entre amigos.


Parto de uma definição muito simples do ato de escrever:

Escrever é contar histórias. 

Esse é o princípio primeiro, essencial, do livro: “Escrever é contar histórias”.

A primeira conclusão que podemos extrair dessa definição é bastante animadora: todos nós já sabemos escrever, pois não fazemos outra coisa senão contar histórias uns para os outros e para nós mesmos. O dia todo, todos os dias. 24/7.

Claro, há uma diferença muito grande entre falar e escrever, entre elaborar histórias mentalmente, contá-las para alguém, e escrevê-las. Porque, quando escrevemos, não dispomos do recurso dos gestos, das ênfases de voz, das repetições para tornar mais claro o que queremos dizer. Quando escrevemos estamos sós diante de uma platéia invisível e exigente: a palavra escrita foi feita para atravessar o tempo, não importa se sob a forma de leis, contratos, tratados ou poemas.

Mas fiquemos, por ora, com nossa conclusão animadora:

Todos nós sabemos contar histórias.

Mas o que é exatamente “contar histórias”?

Proponho outra definição também muito simples:

Contar histórias é encadear fatos no tempo.

Minha abordagem parte então da suposição de que, se dominarmos o uso dos tempos verbais e das conjunções que conectam os fatos entre si, a qualidade de nossa escrita irá ganhar muito em precisão e clareza.

No entanto, para alcançar esse domínio, precisamos entender a lógica que orienta essa processo. Isto é, por que podemos dizer que escrever é contar histórias? Que modelos mentais sustentam essa afirmação? Que faculdades mentais produzem esses modelos? Que princípios da natureza eles espelham?

Neste livro, abordaremos as faculdades, operações, processos e princípios que ordenam o pensamento, e veremos como tudo isso se traduz nas estruturas gramaticais que dão forma aos textos.

Você vai entender melhor quando ler o ÍNDICE DE CAPÍTULOS.